Formação da literatura brasileira: conceitos de Afrânio Coutinho e de Antonio Candido

autorjpritter
0

 


Recentemente terminei a leitura de um livro muito bom chamado “Conceito de Literatura Brasileira” de Afrânio Coutinho. Pelo título, como vocês podem muito bem ver, se trata de uma leitura acadêmica. É uma obra muito difundida no meio, mas que na minha opinião também pode ser lido por pessoas que tem interesse em literatura, mas não são da área de letras. Eu digo isso porque se trata de um livro com uma linguagem bem acessível se fomos comparar com outras obras que vão se ocupar de falar da literatura.

Afrânio Coutinho foi um professor, crítico literário e ensaista. Nasceu em Salvador, BA no ano de 1911 e faleceu no ano 2000. Foi o quarto a ocupar a cadeira 33 na Academia Brasileira de Letras e se destacou como o principal expoente da neocrítica no Brasil, ou seja, ele fundou uma nova formar de se fazer crítica literária.

 

Mas o que teve de tão diferente na visão desse homem em relação a literatura brasileira? Bem, primeiro precisamos citar outro autor que também falou sobre a formação da literatura brasileira, Antonio Candido.

A visão que Antonio Candido tinha da formação da literatura brasileira era uma ideia de sistema. Só existia literatura, de fato, brasileira quando há autor, obra e público integrados em uma tradição contínua, ou seja, para a literatura produzida no Brasil ser nacional, ela precisaria ter evoluído ao passar por diversas escolas anterior, teria que ter uma tradição literária. Para Candido, a literatura produzida aqui só passou a ser brasileira no período Romântico. Isso porque a literatura produzida antes, principalmente no Barroco, não tinha uma tradição no Brasil antes dela, ela veio direto da Europa. O que corrobora com sua teoria é que nesse período romântico, os autores se preocuparam muito em criar uma identidade nacional nas obras, para fortalecer esse espírito nas pessoas que aqui viviam. Então, na primeira fase da escola do romantismo temos obras como “Iracema” e “O Guarani” que buscavam construir a identidade brasileira através da figura do bom selvagem.

Para Afrânio, a literatura produzida no Brasil é brasileira desde o período do Barroco, desde que o primeiro português que aqui pisou e aqui se radicou. Isso acontece porque desde esse momento a realidade geográfica, o clima e o isolamento da metrópole começaram a mudar a percepção de mundo. Mesmo que esse homem escreva em português, mesmo que ele use modelos europeus para compor sua prosa ou seu poema, a sensibilidade é afetada pelo meio no qual ele vive. Afrânio não aceita o rótulo de literatura colonial, primeiro porque o termo “colonial” é política e não literária e isso daria a entender que a literatura aqui produzida seria para a metrópole, mas não é, ela é produzida a partir da vivência do homem que se estabeleceu na colônia. Essa é uma discussão interessante porque muda a nossa visão sobre o que é fazer literatura.

Na página 32 da obra, Afrânio diz o seguinte:

“(...) Uma literatura não é colonial só porque se produz numa colônia e não se torna nacional apenas depois da independência da nação. A nossa literatura sempre foi “brasileira” desde o primeiro instante, assim como foi brasileiro o homem que no Brasil se firmou desde o momento em que o europeu aqui pôs os pés e aqui ficou.”

 

Afrânio usa como exemplo a periodização literária dos nossos vizinhos latinos e da literatura estadunidense. Essas duas não possuem “período colonial” porque se entende que a literatura produzida nesses países que também foram colonizados, era diferente da literatura produzida em suas respectivas metrópoles. “(...) E isso aconteceu porque os americanos não são os ingleses, vivem num ambiente diferente, com um passado diverso. E a literatura americana existe porque os americanos a escrevem”. Ou seja, os ingleses reconheciam que a literatura dos Estados Unidos apresentava uma vivência da qual o homem inglês não entendia, a mesma relação acontecia entre Espanha e colônias espanholas. Por que apenas ter essa relação entre Brasil e Portugal? Essa é a questão que nos leva a problemática da obra.

Para Afrânio Coutinho, a literatura brasileira é formada pelo espírito, através da Manifestação, isso quer dizer que, para ele, onde houve uma criação estética de valor, houve literatura. Isso muda a visão de quem é crítico literário ou pesquisador porque estica a história da literatura brasileira para trás e engloba os cronistas e os poetas barrocos de forma orgânica na história.

Então, se você, meu caro leitor gosta do tema e quer entender mais sobre os estudos da literatura, mas não faz um curso de letras. Ou se você é autor contemporâneo como eu e tem interesse, curiosidade em estudar mais sobre o fazer literatura, sobre a crítica e a pesquisa literária. Eu convido você a conhecer a obra “Conceito de Literatura Brasileira", pois além de você ter acesso a um conteúdo acadêmico de qualidade, você vai conseguir entender melhor a dimensão da produção fictícia.


Postar um comentário

0 Comentários

Postar um comentário (0)